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sábado, 12 de janeiro de 2013

Do Facebook e outros demônios





Já se disse que a vida é uma peça de teatro. Não poderia pensar em definição mais acertada. Somos todos atores, mascarados, encenando a tragédia que é a nossa existência.
Hoje, porém, percebo que essa ideia tem sido elevada a outro nível. Estendemos o palco das nossas vidas às redes sociais. Representar on line se tornou mais importante do que atuar no mundo.
Virtualmente, assumimos os mais variados papéis. Criamos e recriamos nossas personagens com a mesma velocidade que fazemos um download. Assim, o Facebook e outras redes sociais ocupam o lugar central da estetização da nossa existência. Nosso perfil virtual substitui nossa identidade ao mesmo tempo em que parecer “legal” na internet é mais importante do que ser “legal” na vida. No entanto, qual a razão desse fascínio? O que fez com que as redes sociais ocupassem essa centralidade na vida do indivíduo?
Platéia. Esse é o canto da sereia que nos atrai às redes sociais. Nelas, encontramos espectadores para nossas vidas. Pessoas para acompanhar todos os atos da nossa peça.
Temos a necessidade da platéia. Tudo que fazemos tem que ser mostrado, divulgado, postado, publicado. Cada pequena atividade, corriqueira, ordinária, se torna pública. Afinal, “se não colocar no Facebook, não aconteceu”.
De onde vem essa necessidade? Talvez, ela seja uma tentativa de superar o isolamento do indivíduo “pós-moderno”. Um placebo para nossa solidão. Um simulacro de relação humana...
O lado trágico dessa peça é que quando as cortinas baixam e a platéia deixa o teatro, o ator está sozinho no camarim. Então ele tira a máscara e olha para o espelho. Ele esboça um sorriso, mas a imagem refletida no espelho não sorri de volta.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

A Sociedade das Coisas

O Homem é um animal político”. Já afirmara Aristóteles no século IV a.C. O filósofo grego queria dizer que o homem é um ser social por natureza, ou seja, a condição para existir o homem é a existência do outro para reconhecê-lo como tal. Seguindo essa linha, podemos afirmar que foi a partir da relação eu – outro que o animal se humanizou e pôde, através da linguagem, construir cultura, mais ainda, construir História. Isso implica na idéia de que não existe história individual, a história é sempre coletiva, construída diariamente pelo conjunto das ações humanas(1).
Sociabilidade, seria essa a tão procurada essência do homem? Se for, vem à tona uma cruel realidade: a humanidade está perdendo sua essência. Nossas relações eu – outro, que em um primeiro momento nos humanizaram, estão agora nos coisificando, isso porque estamos transformando o outro e até nós mesmos em coisas. Numa sociedade onde tudo vira mercadoria, fica fácil nos confundirmos com os objetos que usamos e classificar o outro a partir da marca de sua roupa e o ano de seu carro. É a sociedade do consumo, do marketing, dos anti-depressivos, das longas jornadas de trabalho para ganhar mais dinheiro e assim poder comprar mais objetos, pois, na lógica capitalista, ter mais é sinônimo de ser mais.
O individualismo, característico da sociedade burguesa, substituiu as relações afetivas por relações de competição. Estamos sempre competindo: no trabalho, na escola, no amor, seja por dinheiro, seja por status... Nessa competição somos tentados a pensar que nós somos auto-suficientes, que a nossa felicidade não depende do outro, só do eu. Tentamos contrariar nossa natureza nos afogando em nossos próprios pensamentos. O resultado, Renato Russo já cantou: “Digam o que disserem, o mal do século é a solidão...”(2).
Mas como escapar da solidão? Nossa saída desesperada está nas coisas, na tecnologia, na TV, nas salas de bate papo da internet... Procuramos inúmeros paliativos para não ter que recorrer à verdadeira solução: o outro. Talvez isso explique o incrível sucesso dos jogos simuladores da vida como o Second Life e o The Sims, pois, a vida virtual parece bem mais fácil de ser vivida, ela é menos dolorosa, menos frustrante. E dessa maneira vamos trilhando o caminho inverso da humanização: a vida do outro passa a valer pouco frente as nossas coisas, os problemas individuais passam a ser mais importantes do que os problemas coletivos, a violência vai se banalizando e nossa casa vai se transformando em uma fortaleza para nos abrigarmos de “tudo que a sociedade tem de ruim”.
Contudo, não podemos nos entregar à solidão, precisamos resgatar a solidariedade perdida no universo das coisas. Temos que reviver antigos hábitos: a conversa na calçada, o passeio despreocupado no parque, a “pelada” do fim de semana... Precisamos, mais do que nunca, rir, amar, brigar... Enfim, temos que resgatar o outro, não o outro objeto, o outro coisa, mas sim, o outro companheiro, amigo, humano. Caso contrário, a humanidade morrerá(3).


NOTAS

(1) Não queremos aqui tirar a importância do indivíduo na história, mas sim, concordar com o poeta e teatrólogo alemão Bertolt Brecht em seu poema Perguntas de um trabalhador diante de um livro de História:
[...]
Quem construiu a Tebas das sete portas?
Nos livros constam os nomes dos reis.
Os reis arrastaram os blocos de pedra?
E a Babilônia? Tantas vezes destruída,
Quem a ergueu outras tantas? [...]



(2) Esperando por mim. Legião Urbana, A Tempestade. 1999. EMI music.


(3) Morrer no sentido de perder sua principal característica, a sociabilidade.