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segunda-feira, 3 de setembro de 2018

AS CHAMAS DA IGNORÂNCIA




“Existe mais de uma maneira de queimar um livro. E o mundo está cheio de pessoas carregando fósforos acesos.”
Ray Bradbury – Fahrenheit 451

Hoje é um dia extremamente triste. O incêndio do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, reduziu a cinzas mais de duzentos anos de história. Milhares de documentos, livros e artefatos arqueológicos foram consumidos pelo fogo. Muito mais do que papéis e objetos, o que queimou na noite deste domingo foi a nossa memória. Infelizmente, esse incêndio era uma tragédia anunciada. Ele reflete o descaso com que a História é tratada nesse país. Quando vemos um governo congelar os investimentos em educação e cultura por 20 anos, através da PEC 241, fica claro que a ignorância e o desprezo pela cultura é um projeto político.
Enquanto eu assistia as chamas consumir o Museu Nacional pela TV, com um nó na garganta e o coração apertado, inevitavelmente veio à minha mente o livro Fahrenheit 451, de Ray Bradbury. O livro, escrito em 1953, nos apresenta um futuro onde a leitura é criminalizada e aos bombeiros caberia a tarefa de encontrar e incendiar livros. A ignorância, o desprezo pela reflexão, pela cultura e pela História são as principais marcas desse mundo distópico criado por Bradbury. O autor nos apresenta até a receita para a imbecilização do homem:

A escolaridade é abreviada, a disciplina relaxada, as filosofias, as histórias, as línguas são abolidas, gramática e ortografia pouco a pouco negligenciadas, e, por fim, quase totalmente ignoradas. A vida é imediata, o emprego é que conta, o prazer está por toda parte depois do trabalho. Por que aprender alguma coisa além de apertar botões, acionar interruptores, ajustar parafusos e porcas?”

É assustador constatar que entre a distopia criada por Ray Bradbury e a atual situação do Brasil não há nenhuma linha que separe ficção da realidade. Vivemos, diariamente, a nossa própria distopia. Ler Fahrenheit 451 é como ver nossa imagem refletida em um espelho. Aqui, valorizamos a ignorância em detrimento da inteligência. As opiniões substituem as reflexões. Vomitamos nossos preconceitos e nosso ódio nas redes sociais e acreditamos em todo tipo de fake news. Tudo isso se intensifica na mesma proporção em que desprezamos a História e a cultura. Aqui, prevalece a política de “deixar os historiadores para lá”. 
O incêndio do Museu Nacional reflete essa situação. Não foi acidente. O incêndio está em perfeita harmonia com o projeto de poder que impera no Brasil. As luzes que tomaram conta da Quinta da Boa Vista estão tragicamente ligadas aos tempos sombrios que estamos atravessando.


domingo, 11 de setembro de 2011

Lembrai-vos do 11 de Setembro...


11 de Setembro de 2001 - Ataque ao World Trad Center, EUA.


Hoje, 11 de setembro de 2011, o “mundo todo” relembra e chora pelos dez anos da queda das torres gêmeas do World Trad Center, nos EUA, naquilo que logo ficou conhecido como “o maior ataque terrorista da História”. O 11 de Setembro de 2001 vitimou quase 3 mil pessoas.
No entanto, não é meu objetivo aqui escrever sobre o 11 de Setembro norte-americano. Tampouco irei mencionar as inúmeras polêmicas e suspeitas que rondam esse “atentado terrorista”. Não vou, aqui, insinuar que o que houve foi um terrorismo de Estado, que o próprio governo norte-americano planejou ou ao menos facilitou os ataques (como muitos acreditam). Muito menos tocarei na questão de como o governo dos EUA se utilizaram dos atentados e do sofrimento da população para legitimar as incursões imperialistas no Afeganistão e no Iraque. Não é minha intenção associar a “Guerra ao Terror” promovida por George W. Bush a interesses puramente econômicos, como o interesse no petróleo, por exemplo. Afinal, não encontraram as armas de destruição em massa no Iraque, mas isso não vem ao caso.
Não! Não vou comentar que o famigerado terrorista (hoje ex-terrorista, pois segundo dizem, está morto!) Osama Bin Laden foi treinado e financiado pelos EUA na década de 80 para combater os soviéticos no Afeganistão...
Não! O objetivo desse texto é relembrar outro 11 de Setembro... Mais precisamente, 11 de Setembro de 1973. Esse 11 de Setembro não se passou nos EUA, se passou no Chile. Suas vítimas não foram quase 3 mil pessoas, mas sim 30 mil.
Lembrai-vos, lembrai-vos do 11 de Setembro de 1973! Quando um golpe de Estado pôs fim ao governo de Salvador Allende (eleito democraticamente em 1970), no Chile. O golpe militar do Chile teve cooperação e financiamento dos EUA e elevou ao poder o General Pinochet, que instaurou um período regido pela violência.
Mais do que uma simples mudança de governo, o golpe patrocinado pelos EUA interrompeu um governo democrático que buscava soluções paras os problemas sociais e econômicos que afetavam a sociedade chilena. Nacionalização de algumas empresas e bancos, Reforma agrária, participação popular, Democracia – tudo isso contrariava os interesses políticos e econômicos dos EUA no Chile. Como já havia ocorrido no Brasil em 1964 (e em quase toda a América Latina), o Chile cometeu o pecado de não seguir à risca a cartilha dos EUA e seguiu o caminho da autodeterminação, o resultado foi trágico.
Salvador Allende morreu durante o bombardeio do Palácio La Moneda (Palácio de Governo), de onde se recusava a sair. O que se seguiu depois foram mortes, prisões, torturas, estupros... O golpe de Estado de 11 de Setembro de 1973 manchou com sangue os sonhos e esperanças de toda uma geração que sonhava com justiça social e igualdade... Mais do que qualquer outro 11 de Setembro, o de 1973 precisa ser lembrado.



Salvador Allende, assassinado no Chile em 11 de Setembro de 1973.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Combates na História

Os "Caras Pintadas", em 1992



“Quem controla o passado controla o futuro;
 quem controla o presente controla o passado”
George Orwell – 1984

Afinal, o que é a História? Para que ela serve? Com certeza, muitos de nós já nos fizemos essa pergunta. Por mais complexa que possa parecer essa questão, uma coisa é certa: a História é perigosa. Sim, perigosa! Muitos a temem, outros tentam controlá-la. Por que?
A História não é simplesmente o acúmulo dos acontecimentos do passado. Nem tampouco é neutra, imparcial. Narrar uma história é atribuir significados, é dar importância a determinados acontecimentos em detrimento de outros, é fazer escolhas. Ela não está presa ao passado: pensamos e narramos a História a partir das questões e interesses do presente e, através dela, fazemos projeções para o futuro. Ela organiza um campo de ação, um modo de conceber o mundo. Nesse sentido é que se expressa sua dimensão política.
Constantemente, a História é usada para dar legitimidade a governos, perpetuar “certezas” e dissipar conflitos. É o que chamamos de “História Oficial”. Uma história que está a serviço da manutenção da ordem e perpetuação dos que estão no poder.
O uso político da História não é novidade: na antiga URSS, Stálin reconstrói a narrativa sobre a Revolução Russa e tira Trotsky, seu opositor, dos livros de história. Na literatura, George Orwell nos põe diante de uma Inglaterra futurística no qual a ditadura do Grande Irmão reescreve constantemente a História, utilizando-a para justificar seu poder e perseguindo aqueles que a questionam.
Ontem, 30 de Maio de 2011, a política brasileira deu mais um exemplo de como “usar” a História para perpetuar poderes. Foi reinaugurado, no Senado, o “Túnel do Tempo”: um corredor ao longo do qual se vê uma linha do tempo em que se exibem, através de imagens e textos, os “principais” acontecimentos políticos do país, de 1889 (proclamação da República) até os dias atuais. Curiosamente, o impeachment do ex-presidente e hoje senador Fernando Collor de Mello (PTB – AL), de 1992, foi “apagado” da história.
O presidente do Senado, José Sarney (PMDB – AP), antigo desafeto e hoje aliado político de Fernando Collor, justificou a atitude alegando que o impeachment de Collor foi um “acidente que não deveria ter acontecido”, o acontecimento não teria sido “marcante”. Em suas palavras:
“Não posso censurar os historiadores que foram encarregados de fazer a história. Agora, acho que talvez esse episódio seja apenas um acidente que não deveria ter acontecido na história do Brasil. Mas não é tão marcante como foram os fatos que aqui estão contados, que foram os que construíram a história, não os que de certo modo não deveriam ter acontecido” (grifos meus).
O que Sarney pretende com essa atitude? Ele é capaz de determinar o que é importante ou não para a História? Classificar o processo de impeachment de Collor como um erro sem importância que não deveria ter acontecido é renegar a luta daqueles que foram às ruas no movimento dos Caras Pintadas gritando “fora Collor!”. É simplesmente tentar “varrer” da História um dos momentos em que a sociedade civil fez valer sua voz e derrubou o presidente da República. É uma agressão simbólica à sociedade brasileira. O Senado reescreveu a história do Brasil e nela não há lugar para os brasileiros.
No entanto, como já mencionei, a História é perigosa! Assim como pode sustentar um governo, ela pode derrubá-lo. O campo da História é antes de tudo um campo de combate. Daí a importância do historiador: ele deve lutar contra a História instituída, destruindo o discurso daqueles que querem perpetuar seus privilégios e poderes. Como escreveu o filósofo Walter Benjamin, ele deve “escovar a História a contrapelo”.